sábado, 5 de maio de 2012

Água Branca

Maio de 2010

 Nasci e ali vivi até os dez anos de idade. Sei por sentir e por ouvir falar o quanto fui amada e mimada por meus avós.
    Passaram-se décadas, sem vestígios de lembranças dessa vida. Raros fragmentos de lembranças, mais sentidas que lembradas, apareciam muito raramente sem pedir licença em flashs nebulosos sem forma ou cor.
   Contudo, esse passado, quando já o imaginava apagado por completo da memória, reaparece convertido em imagens de minhas saudades.
   Recentemente tomei coragem e, cheia de esperanças, fui até lá... Quase tudo continuava do mesmo jeito, embora agora tudo parecesse menor, como se casas e objetos, ou talvez fosse apenas a vida, encolhessem com o tempo... Encontrei a casa velha, o pé de criolí e Teresa Dodô. Esta,com seus cabelos brancos, triste, sozinha e senil na sua fala e nas suas lembranças. Mas, estava lá, ela e a casa velha. Velha pelo tempo e pelo peso das saudades, parada no tempo, raquítica, frágil e transbordando de fantasmas de um passado muito muito distante e de sentimentos, para mim, ainda indecifráveis.
   Depois desse retorno compreendi que as primeiras auras da velhice se aproximavam. Hoje, ao escutar o trovejar antes da chuva, as lembranças se tornaram tão vívidas que pareciam de ontem, com a nitidez pervesa da saudade.
   Lembrei-me do trovão solitário pedregoso e pontual que estrondava todos os dias de dezembro as três da tarde na Serra Grande de Água Branca. Recordei da doçura do criolí de então, que nunca mais tinha tornado a ser o mesmo.Do meu avô que, à noitinha me colocava no colo e contava estórias do capitão Virgulino. Da minha casa daqueles tempos, grande, sólida com calçadas altas onde eu ficava dependurada. Sinto fortemente os cheiros da casa, do mato, da manga podre, do asfalto, na construção da estrada BR 343. Lembro e vejo nitidamente aqueles caçacos, povo nômade, nas suas casas de tábuas à beira da estrada, o mercado imaginário lá no pontilhão, onde eu e algumas crias de casa, íamos ''vender  mangas podres''.Eu era  pequena e  adorava e vivia o mundo do faz-de-conta.
   Essas lembranças são tão recentes que chegam às vezes a se confundir com a realidade presente.

  Água Branca fica a mais ou menos 10 Km de Campo Maior e lá residia naquela década (1956-1966) boa parte da minha família, popularmente chamada de ''Caburés''.

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